segunda-feira, 28 de março de 2011

Alguns "devaneios" de Lya Luft

Folheando uma revista Veja - só Deus sabe onde e quando - pude conhecer os textos dessa fantástica escritora chamada Lya Luft. Posto aqui um texto de sua autoria que revela a perícia com a qual escreve e que também nos mostra o quão arguto é o seu pensar.

"Por isso escrevo e escreverei: para instigar o meu
leitor imaginário -substituto dos amigos imaginários da infância? – a buscar em si e compartir comigo tantas inquietações quanto ao que estamos fazendo com o tempo que nos é dado. Pois viver deveria ser – até o último pensamento e o derradeiro olhar - transformar-se. O que escrevo aqui não são simples devaneios. Sou uma mulher do meu tempo, e dele quero dar testemunho do jeito que posso: soltando minhas fantasias ou escrevendo sobre dor e perplexidade, contradição e grandeza; sobre doença e morte. Lamentando a palavra na hora errada e o silêncio na hora em que teria sido melhor falar. Escrevo continuamente sobre sermos responsáveis e inocentes em relação ao que nos acontece. Somos autores de boa parte de nossas escolhas e omissões, audácia ou acomodação, nossa esperança e fraternidade ou nossa desconfiança. Sobretudo, devemos resolver como empregamos e saboreamos nosso tempo, que é afinal sempre o tempo presente. Mas somos inocentes das fatalidades e dos acasos brutais que nos roubam amores, pessoas, saúde, emprego, segurança, ideais. De modo que minha perspectiva do ser humano, de mim mesma, é tão contraditória quanto, instigantemente, somos.
Somos transição, somos processo. E isso nos perturba. O fluxo de dias e anos, décadas, serve para crescer e acumular, não só perder e limitar. Dessa perspectiva nos tornaremos senhores, não servos. Pessoas, não pequenos animais atordoados que correm sem saber ao certo por quê."

Todo pastor é pregador?

Afinal de contas, todo pastor é, por definição, um pregador por excelência?
Respondo que não. Desejo justificar minha resposta.
Para chegar a essa conclusão parto do pressuposto de que Deus dispensa dons sem olhar a quem. Acredito piamente que os dons, concedidos pelo Criador para que o sirvamos melhor, não são entregues por merecimento.
Também entendo que esses mesmos dons não são fornecidos de modo seletivo. Talvez possa ser mais claro. Por exemplo: “Quem tem o dom de cantar também leva junto o dom de tocar”; “quem é intercessor também é profeta”; “quem é pastor, obrigatoriamente, também é pregador”. Definitivamente não é assim que vejo os dons.
Creio que possa sim haver casos onde se tenha a figura do pastor, homem ou mulher, inquestionavelmente dotado de uma aptidão especial para cuidar e aconselhar, mas que concomitantemente, não exala uma grande aptidão para o púlpito.
É perfeitamente possível que o Pastor, apesar de pregar e ensinar – tarefas das quais nenhum deve se eximir – possa sim apresentar certa imperícia no ato da proclamação do Evangelho.
Não creio que ser pastor e ser um grande orador sejam habilidades que devam imperiosamente estar relacionadas uma com a outra. Como também não creio que a função da prédica seja uma exclusividade do Pastor. Se ousarmos falar de exclusividade em alguma coisa teremos que, fatalmente, afirmar que o púlpito é uma exclusividade de quem foi chamado(a) para estar lá, assim como no louvor, na intercessão, no trabalho infantil, e outros.
Mas, como bom amante da democracia, prefiro não falar em “exclusividade”.
Por conta disso é que o púlpito não deve jamais ser patenteado por alguém, assim como nenhuma outra parte da igreja. Tudo é de todos. E tudo é do Senhor. Somente este pode dizer quem deve ou não estar em algum lugar.
A verdade é que pode ocorrer – e invariavelmente acontece – de termos na igreja pessoas que tenham uma melhor desenvoltura no púlpito do que o próprio Pastor, homens ou mulheres que conseguem transmitir uma mensagem com maior eficiência, haja vista terem sido chamados para essa função. Fato que não minimiza a importância do ministério pastoral o qual não se resume apenas à pregação, engloba sim muitas outras imprescindíveis tarefas.
Diante disso existe algum dilema? Creio que não.
Na verdade tanto o Pastor como o Ministro(a) "não oficial" devem abraçar algumas posturas.
A postura do primeiro é dar oportunidade para que o ministério de suas ovelhas se desenvolva. A do segundo é entender que dom ou capacidade não está, necessariamente, ligado à autoridade.
Portanto se para o primeiro a palavra é investimento, para o segundo é submissão e respeito.
Estou ciente que muitos não concordam com essa visão. Porém, é assim que penso.

sábado, 26 de março de 2011

"Quando o silêncio cobre o nome"

Havia certa vez um homem
que dizia o nome de Deus.
Quando o coração lhe doía
por uma criança que chorava,
ou um pobre que mendigava,
ele andava até a floresta,
acendia o fogo, entoava canções
e dizia as palavras.
E Deus o ouvia...

O tempo passou.
Voltou a mesma floresta.
Mas não carregava fogo nas mãos.
Só lhe restou cantar as canções
e dizer as palavras.
E Deus o atendeu ainda assim.

Um tempo mais longo se foi.
Sem fogo nas mãos,
sem força nas pernas,
não alcançou a floresta.
Mas do seu quarto
saíram as mesmas canções
e as mesmas palavras.
E Deus lhe disse que sim...

Chegou a velhice.
Nem floresta, nem fogo ou canções...
Restaram as palavras.
E o mesmo milagre, ocorreu.

Por fim
sem fogo ou floresta,
sem canções ou palavras.
Só mesmo o infinito desejo
e o silêncio:
E Deus tudo entendeu...

quinta-feira, 17 de março de 2011

Leituras e releituras

Ontem li o trecho do Evangelho de Marcos que retrata o momento em que Pedro nega a Jesus três vezes. Não me recordo quantas vezes já li e reli essa passagem.
A sensação é sempre a mesma. Intriga-me profundamente o fato de Pedro ter caído sem se dar conta disso. Foi sucumbindo em meio a uma terrível cegueira de si mesmo.
Pedro não se conhecia, não sabia quem na verdade era. Não se apercebia da sua exagerada auto-confiança.
Esta foi determinante para a queda.
Quantos de nós não caímos da mesma forma? Muitos já experimentaram ou estão a experimentar esse "desmoronamento" fiados numa auto-suficiência injustificável. Injustificável porque independente da função ou cargo que ocupemos no corpo - Pastor, Profeta, Mestre, Evangelista, ou qualquer outra posição - nunca deixaremos de ser humanos. Jamais abandonaremos a condição de falíveis.
Não adianta tergiversarmos. O equívoco é-nos possível.
Interessante que o próprio Jesus corrige o iludido Pedro: "Ainda que todos se escandalizem, nunca, porém, eu!", dizia Pedro. A resposta do Mestre foi enfática: "Ainda hoje, esta noite, antes que o galo cante, três vezes me negarás". Em outras palavras "acorda Pedro, andastes comigo este tempo todo, mas continuas um mero homem", "continuas precisando da minha Graça e do meu Perdão".
Conheço líderes cuja percepção de sua humanidade é bastante falha. Tudo que decidem emana diretamente de Deus, o que os priva - pelo menos assim imaginam - de todo e qualquer equívoco. Todavia assim como chuva de verão os equívocos, mesmo sendo inesperados, acabam aparecendo. É a comprovação de que nem tudo é tão "inspirado" como se apregoa.
O maior ensinamento que extraio desse texto é o de nunca deixar-me ser seduzido pela "síndrome da infalibilidade", fato que muitas vezes se origina da posição que ocupamos ou da responsabilidade que temos no Corpo de Jesus.
Também carrego comigo a seguinte certeza: se, um dia, seduzido for, sei que o meu Senhor poderá me conceder a chance de "cair em si" e "chorar amargamente". Esse é o momento mais glorioso do texto. Esse seria o momento mais glorioso para minha vida.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Uma reflexão sobre autoridades na Igreja

Engana-se quem pensa ser o tema "autoridade na igreja" um problema apenas para os que dela não fazem parte. O oposto é a verdade. Ninguém sofre mais com os abusos, os desmandos e os arroubos messiânicos dos líderes eclesiásticos que seus próprios liderados.
Atualmente tenho lido um livro de Leonardo Boff - "Igreja, Carisma e Poder" - a respeito do qual confesso: é o grande responsável por tal assunto estar vindo à minha irrequieta mente.
Lógico, Boff é Teólogo de formação católica; o contexto no qual insere suas reflexões é a igreja católica e toda a sua estrutura eclesiástica; suas conclusões acerca do tema "autoridade na igreja" tem como pano de fundo o clero romano.
Mas como o prórpio autor assevera "onde há autoridade podem ocorrer abusos dela". Portanto, como "pretenso-teólogo-evangélico/protestante", vejo muitas de suas colocações como relevantes para o contexto evangelical também.
Ele diz: "Sociologicamente falando a igreja se rege nos quadros de um sistema autoritário" ou seja, "os portadores do poder não necessitam do reconhecimento dos súditos para se constituir e se exercer". Com raras exceções, o quadro se repete nas igrejas evangélicas. Estamos rodeados de líderes cuja autoridade só eles reconhecem. Pastores não por vocação, mas por falta de opção.
Outra colocação importante de Boff é ressaltar que "a atual estrutura da igreja é devedora de representações de poder que possuem séculos de existência". Elas são o estilo romano e a estrutura feudal. O que isso quer dizer? Há uma justificativa histórica para a forma de autoridade na Igreja. Tenho dificuldade com líderes que sempre vinculam seu estilo liderança a uma "revelação especial de Deus". Em outras palavras: não pode ser questionada.
Essa autoridade em estilo romano e feudal, segundo Boff, caracteriza-se por quatro fatores: "Hierarquia piramidal, Poder vitalício, Hierarquia sagrada e cósmica e Hierarquia intocável e não sujeita à críticas". Bem, entendo que as duas últimas possui alguma correlação conosco.
Aceitamos que as autoridades eclesiásticas derivam diretamente da vontade de Deus. Ora, a lógica é que "quanto mais alto alguém se encontra na pirâmide, mais perto está de Deus e assim mais participa do seu poder. Obedecer ao superior é, fundamentalmente, obedecer a Deus".
O estágio seguinte é consequência do anterior. Se a legitimação de uma autoridade vem de cima, de Deus, como criticá-la? Como questionar suas decisões? É possível pensar diferente sem que estejamos resistindo ao próprio Deus? Mas como explicar as aberrações que já se fizeram em nome dessa autoridade na "santa" inquisição? E as atrocidades que vemos acontecer todos os dias nem muitas igrejas? E as inúmeras frustrações e feridas geradas por líderes inescrupulosos? E as manipulações do sagrado? "Linguagens piedosas disfarçando a sordidez do caráter".
Claro, não pretendo discutir a validade da autoridade na igreja; nem muito menos a sua importância. Aliás como o próprio Boff afirma "a legitimidade não se discute; a autoridade existe e é querida por Deus". Concordo.
Porém devemos sim questionar a forma, a manaira como se organizam, as justificativas ideológias e até teológicas para formas comprovadamente equivocadas de liderança.
E, lamento informar: existem muitas.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ai que saudade...

Ai que saudade...
Do tempo em que não passava de uma ingênua criança
Do tempo em que o futuro ainda era algo longínquo com o qual podia sonhar
Do tempo em que nada era, apenas, queria ser

Ai que saudade...
Acordar cedo
vestir o uniforme escolar
rever pessoas que o tempo tratou de apagar da minha frágil memória,
partir para o lugar do qual um dia pensei sair "doutor".

Ai que saudade...
Dos que se foram sem ao menos se despedir
Daqueles que um dia estiveram ao meu lado, tão próximos...
mas que partiram para a viagem da qual jamais voltarão.

Ai que saudade...
Do sorriso fácil do meu inesquecível "Tio Chagas"
Da sua presença simples, porém não menos marcante
pulverizada por um crime estúpido e inexplicável

Ai que saudade...
Da minha primeira igreja,
Da minha primeira - e o tempo insiste em torná-la única - referência de fé,
Da minha primeira oração,
Do meu primeiro e canhestro sermão,
Dos meus primeiros irmãos.

Concordo com o que disse Rubem Alves: "a saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar", por isso é que permaneço declamando: Ai que saudade...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Uma experiência inquietante

Ontem, cedendo a alguns velhos convites, fui a um culto em uma grande igreja próximo a minha casa. Na verdade, essa denominação é um verdadeiro fenômeno no quesito público. Segundo estimativas dos próprios organizadores, ontem havia mais de 4 mil pessoas naquele local.
Porém não é tal estimativa que surpreende. O mais supreendente é que esse número não passa de rotina nas celebrações daquela denominação.
Muitos já haviam me convidado para conhecer o tal "fenômeno". Alguns até me alertaram sobre o "perigo" de desejar filiar-me a mesma imediatamente após o culto frente ao grande impacto que este vem causando nos que ali se fazem presentes. Usando uma expresão de uma das cantoras do grupo de louvor da mesma, eu corria o perigo de "viciar-me".
Pois bem. Chegou o tão aguardado dia. O dia no qual, enfim, poderia ver, presenciar, testemunhar, "experimentar" a tão propagandeada "unção" espiritual que envolve aquele lugar.
Nesses pouco mais de dez anos de convertido ao Evangelho, visitei, preguei, participei de congressos, assisti à inúmeras conferências e palestras, estive em vigílias de oração, isso em inúmeras denominações evangélicas. Arminianas e calvinistas, pentecostais, neo-pentecostais e tradicionais, enfim, em quase todos os tipos de seguimentos do mundo evangelico-protestante. Essa experiência, apesar de não tão dilatada assim, concede-me o necessário tirocínio para antever alguns "sintomas" que possivelmente exprerimentarei ao visitar certas denominações.
Ontem...não foi diferente. Tudo que senti havia intuído antecipadamente.
Infelizmente havia acertado em tudo. Digo infelizmente porque, sinceramente, ficaria imensamente feliz se surpreendido fosse. Mas, não fui.
Muito barulho, pouco conteúdo. Muita música, pouca adoração. Muitas pessoas, poucos discípulos.
Saí daquele local com a angustiante sensação de haver assistido a um show - ruim, por sinal - e não, cultuado.
A impresão que tenho é que existem muitas igrejas confundindo ajuntamento com culto. Traseuntes com membros compromissados com o Evangelho. O próprio Jesus já nos alertara de que conviveríamos com tais dilemas. Cresce "o joio", e de igual modo "o trigo", no mesmo terreno, quase que cofundidos pela proximidade, porém essencialmente distintos.
Sei que preciso refletir e orar mais para falar com mais propriedade acerca de situações como essa.
A única certeza que tenho é que essa foi uma experiência inquietante.

Uma confissão do Reverendo Caio Fábio

"Eu me converti há 22 anos passados e os meus relacionamentos eram
todos do lado de fora do saleiro. Eu era terra da terra e pó do pó. Quando
Jesus entrou na minha vida, Ele desafiou-me a ser sal da terra. Num
primeiro momento, eu vim do mundo para a missão.
Comecei a pregar em todos os lugares. Alguns amigos começaram a
dizer sobre mim:
"Ele parece um carro velho; onde para, prega."
Depois dessa primeira fase (do mundo à missão) vem a segunda: da
missão ao monastério. Esta se dá quando descobrem que alguém está
fazendo missão e convidam esse alguém para ensinar como fazê-la. Com
isso vai-se deixando a esquina, a praça, a vida, ficando distante do
linguajar do cotidiano, começando a usar uma outra linguagem, ficandose
extremamente sofisticado; o número de pessoas que antes o entendiam
diminui a cada dia. No meu caso particular, eu me vi falando a pessoas que gostavam de ouvir sobre missão, as quais sentiam um "cafuné
missionário" invadindo o corpo delas todo, ficando tão concentradas no
que ouviam, que experimentavam a sensação de que, enquanto eles
ouviam, o mundo melhorou só porque pensaram em missão.
Depois veio uma outra etapa: do monastério à missão no mundo.
Nunca me senti tanto fazendo missão no mundo como nos últimos 5 anos.
Fazendo missão num mundo no qual nem se pode imaginar que se pode
fazer missão, até que se começa a perceber que pode haver luz brilhando
nele; que um olhar, que um sorriso, que um gesto, as mais insignificantes
expressões, a linguagem, o falar e o silenciar estão gerando uma revolução
dentro das pessoas. Até que se começa a perceber que elas vão se
sensibilizando, vulnerabilizando-se diante de algo que é mais forte do que
elas. De forma que elas começam a querer ouvir tais palavras de gosto,
começando a dizer:
"Eu não sou evangélico. Para ser franco, eu não gosto de evangélico.
Mas, há algo que vocês falam que é fascinante."
Esse algo só pode ser Jesus de Nazaré. Então, começa-se a descobrir
o quanto nossa vida pode ser contagiante, provocativa, revolucionária,
perturbadora e prazerosamente divina." Para refletir.

sábado, 5 de março de 2011

Escritores com os quais me identifico

Uma das experiências mais interessantes que vivencio quando debruçado estou em alguma leitura é a de conhecer novos escritores através dos textos que leio frequentemente. Numa dessas "distrações literárias" conheci Frei Betto, um frade dominicano autor de mais de 51 obras publicadas. Nascido em Minas Gerais, estudou Antropologia, Teologia, Jornalismo e Filosofia. Autor de livros consagrados como "Batismo de Sangue", "A Mosca Azul" e "Calebdário do Poder". Também participou por dois anos do governo Lula onde foi um dos responsáveis por engendrar o "Fome Zero".
Frei Betto é daqueles escritores que consegue dizer muito em pouco espaço. No mundo das letras uma raríssima exceção.
Minha primeira experiência com um livro de Frei Betto foi, no mínimo, curiosa. Estava de passagem no centro da cidade de Fortaleza, e como de costume, resolvi parar numa dessas livrarias populares - aqui chamamos de "Sebo" - para conferir as novidades. O primeiro livro que vi foi "Diálogos criativos", uma obra de Frei Betto escrita em parceria com Domenico de Masi. Um livro maravilhoso que recomendo para quem gosta de uma boa leitura.
Desde então tenho lido várias de suas obras e pretendo publicar aqui alguns textos de sua autoria.
Aguardem.

Minha conversão á leitura

A leitura foi um hábito que desenvlovi tardiamente em minha vida. De fato tudo começou não na escola - onde deveria ter sido - mas quanto tive contato com a Bíblia Sagrada. Minha conversão a Cristo aos 18 anos impulsionou - me a cultivar uma atividade a qual nunca antes me dedicara: a leitura. A princípio, apenas a Bíblia. Posteriormente as Escrituras e alguns livros que versavam sobre tópicos bíblicos.
Mas alguma coisa diferente estava acontecendo comigo. Eu não sabia descrever o que era. Talvez fosse o fascínio produzido pelo que mora dentro do texto. Ou talvez, o prazer de simplesmente estar conhecendo mais, entendendo mais, enxergando mais.
Todavia tais justificativas eram simplórias demais para satisfazer o meu "ego" indagador. Descobri então que estava sendo "assaltado" pelo germe do conhecimento: a curiosidade. Sem a curiosidade jamais haveria ciência e nem muito menos conhecimento.
A constatação de que acertara no diagnóstico é que aos poucos fui dilatando minha agenda diária de leitura. Comecei a introduzir outros assuntos que não estavam - pelo menos diretamente - relacionados à Bíblia propriamente dita. Ao passo que conhecia a história do povo hebreu, senti a necessidade de conhecer melhor a história da minha nação. Tomei um livrinho de História do Brasil, antigo e bastante empoeirado e, literalmente, "devorei".
Na igreja onde tinha acontecido a minha conversão rapidamente surgiu a oportunidade de discursar, pregar a Palavra de Deus. Paralelamente surgia em mim a seguinte indagação: se tenho de falar em público preciso, no mínimo, saber expressar-me a contento. Começava aí uma "relacionamento amoroso" com a língua portuguesa.
Tão habitual quanto escovar os dentes ou tomar banho era estar à mesa com uma Gramática. Desse ponto em diante "um abismo" foi chamando outro "abismo".
Apaixonei-me à primeira vista pela literatura brasileira. O Quinhentismo, o Barroco, O arcadismo, o Romantismo, O realismo - de onde se deriva, a meu ver, o escritor por excelência Machado de Assis - temas outrora abjetos para mim assumiam agora contornos diferentes.
Fui estudar grego, uma das gêneses do nosso vernáculo. Simplesmente, fantástico! Embriaguei-me com o "vinho" da cultura grega.
Já tive a oportunidade de ler obras filosóficas, tratados sociólogicos, obras de psicologia, administração, um pouco sobre educação. Tive a honra de conhecer a poesia de Fernando Passoa e a oportunidade de compreender melhor a política brasileira "aos pés" de um frade dominicano.
Nos últimos anos, resolvi aprender Inglês.
Mas essa é uma outra história.
Enfim, foi assim que se deu a minha conversão á leitura.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Uma pérola do Pr. Ricardo Gondim


O pastor Ricardo é um dos poucos homens que aprendi a enxergar como um ser humano comum, sujeito ás mesmas vicisitudes que qualquer mortal, apesar da sua vocação pastoral e da sua posição de líder de uma das principais igrejas evangélicas deste país que é a Betesda. Infelizmente, raríssimas exceções no nosso meio protestante evangélico. Abaixo, cito na íntegra uma pérola sua.

Procuram-se anti - heróis

Há alguns anos, Lance Morrow escreveu na revista “Time” que “ser famoso é, entre as ambições humanas, a mais universal. Quem, a não ser monges e freiras, se contenta com a simples atenção de Deus? Quem busca ser obscuro na vida? Em nossa sociedade, ser obscuro é ser fracassado”. Realmente, o mundo está lotado de gente correndo pelos primeiros lugares. Já se disse que quem chega em segundo não é vice, apenas o primeiro entre perdedores. Somos seduzidos pelas luzes e holofotes feito mariposas. O Ocidente alimenta o sonho do heroísmo; a modernidade, calcada na ideia do progresso, acena que a felicidade depende de conquistas; e a espiritualidade que se difundiu no hemisfério sacraliza ideais ufanistas.
Especialistas em planejamento estratégico, gurus em autoajuda e neurolinguistas repetem a fórmula da eficiência, competência, excelência, como estradas para o sucesso. A vida se transforma em uma guerra na qual os mais fortes sobrevivem. O esforço de ser campeão cria a necessidade de suplantar os outros. Importa conquistar o pódio dos grandes ídolos. Os menos hábeis que pelejem para não serem extintos.
Será que anônimos, gente simples, que jamais ganharão um Prêmio Nobel, merecem o desprezo que sofrem? Devem ser tratados como fracassados aqueles que nunca serão manchete de jornal? A indústria do espetáculo torna difícil acreditar que muita gente leve uma vida bonita sem as luzes da ribalta.
A cosmovisão moderna foi criticada em “Crime e Castigo”, de Dostoievsk Raskólnikov, personagem principal, classifica a humanidade em seres “ordinários” e “extraordinários”. Para justificar um assassinato, ele afirma que os “ordinários” são as pessoas que vivem uma vida despretensiosa, sem grandes desdobramentos para a macro-história. Esses podem ser sacrificados pelos “extraordinários”, que são os responsáveis pela condução da história. Impressionado por Napoleão ter derramado tanto sangue e mesmo assim ter sido perdoado pela história, Raskólnikov se comporta como uma pessoa “extraordinária” e assassina duas vidas.
O mundo, entretanto, não precisa de heróis, mas de anti-heróis. Gente que ame a discrição mais que o espalhafato, que valorize a intimidade relacional mais que a superficialidade, que veja beleza na candura mais que na sofisticação e que não fuja de sua fragilidade humana. O desabafo de Fernando Pessoa em “Poema em Linha Reta” merece ser mencionado: “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana/ Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;/ Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!/ Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam./ Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?/ Ó príncipes, meus irmãos,/ Arre, estou farto de semideuses!/ Onde é que há gente no mundo?”.
O evangelho não incentiva a busca do sucesso. Jesus, discretíssimo, jamais aceitou a lógica do triunfo. Ele exerceu o seu ministério nos confins da Galileia e não em Jerusalém; escolheu pescadores rudes como discípulos; priorizou alcançar marginalizados, pobres e esquecidos. Não cedeu ao apelo de ir para Atenas, mas foi para Jerusalém morrer. A lenta transformação do cristianismo em um sistema religioso com heróis de renome, ícones aplaudidos e mitos idealizados não tem nada a ver com o projeto inicial do carpinteiro de Nazaré.
Cristianismo não é espetáculo. Nem sequer louvor significa show. Não se pode confundir profeta com animador de auditório nem evangelista com mascate. Púlpito não pode virar palco; nem sacristia, camarim. Esperança não se vende, nem milagre deve ser trampolim para a glória.
Paulo afirma em 1 Coríntios 4 que os líderes se consideram como despenseiros dos mistérios de Deus, e dos despenseiros requer-se tão-somente que sejam fiéis. Deus não premia sucesso, e sim integridade. Mulheres e homens anônimos, que trabalharam a vida inteira em asilos, comunidades indígenas, orfanatos, favelas, centros de reabilitação de alcoólicos, não malograram; pelo contrário, estes são os que a epístola aos Hebreus descreve como aqueles dos quais “o mundo não é digno”. Eles são sal da terra e luz do mundo. Nunca a fé cristã dependeu tanto desses anônimos que seguem os passos de Jesus.

"Meditações autônomas" - "E a pedra já estava revolvida..." Mc 16.1-4

A preocupação é algo extremamente comum na vida de qualquer ser humano. Até mesmo aqueles que gozam  de invejável espiritualidade não podem negar o óbvio: já tiveram uma "preocupaçãozinha" sim!
Quem nunca esteve angustiado com dilemas referentes ao futuro inexistente? Qual o indivíduo que em algum momento da vida não sentiu a "espinha" esfriar por conta do desconhecido?
Na verdade, quem se preocupa antevê o problema; foca um iminente fracaso; mira o provável insucesso e todos os dissabores que o mesmo proporciona.
No caso das mulheres que foram ao sepulcro de Jesus, a preocupação - nem aqui ela deixa de existir - era uma tal "grande pedra". Pensavam elas: "não conseguiremos removê-la. É pesada demais!"
O curioso é que a pedra já havia sido revolvida sem que tivese havido qualquer participação por parte das preocupadas mulheres. A lição é uma obviedade: Há momentos em que nos preocupamos com o inexistente. Inquietamo-nos, angustiamo-nos, sofremos com situações que ainda sequer extrapolaram a barreira do nosso imaginário. E que, talvez, jamais passarão a existir. Preocupamo-nos com pedras já revolvidas do nosso caminho. Eis a grande lição desta pequena perícope Marcos capítulo 16. 

Por que fé, espiritualidade e outras inquietações?

De todas as artes que conheço, nenhuma me fascina mais que a arte de escrever. Aprecio e degusto os textos de meus escritores favoritos com admirável dedicação. Todavia em meio a uma infinidade de assuntos com os quais todo devotado leitor se depara, há sempre aqueles que nos chamam mais a atenção. Não apenas pela qualidade do texto ou pela apreciável forma com a qual foram produzidos, mas por afinidade propriamente dita.
Em particular procuro dar atenção a todos os assuntos possíveis. No entanto, é inegável a minha inclinação para assuntos que versem sobre "Fé, espiritualidade e eternas inquietações". Gosto de poesia, de uma boa crônica, não resisto a um romance "bem nascido". Mas... devo confessar; continuamente sou vencido pela tríade que dá nome a esse blog.
Portanto, minhas primeiras palavras podem ser descritas como uma espécie de justificativa, até mesmo para que os meus poucos, mas fiéis leitores possam tomar conhecimento da base que alicerçará os nossos devaneios.
No momento, é isso.