Engana-se quem pensa ser o tema "autoridade na igreja" um problema apenas para os que dela não fazem parte. O oposto é a verdade. Ninguém sofre mais com os abusos, os desmandos e os arroubos messiânicos dos líderes eclesiásticos que seus próprios liderados.
Atualmente tenho lido um livro de Leonardo Boff - "Igreja, Carisma e Poder" - a respeito do qual confesso: é o grande responsável por tal assunto estar vindo à minha irrequieta mente.
Lógico, Boff é Teólogo de formação católica; o contexto no qual insere suas reflexões é a igreja católica e toda a sua estrutura eclesiástica; suas conclusões acerca do tema "autoridade na igreja" tem como pano de fundo o clero romano.
Mas como o prórpio autor assevera "onde há autoridade podem ocorrer abusos dela". Portanto, como "pretenso-teólogo-evangélico/protestante", vejo muitas de suas colocações como relevantes para o contexto evangelical também.
Ele diz: "Sociologicamente falando a igreja se rege nos quadros de um sistema autoritário" ou seja, "os portadores do poder não necessitam do reconhecimento dos súditos para se constituir e se exercer". Com raras exceções, o quadro se repete nas igrejas evangélicas. Estamos rodeados de líderes cuja autoridade só eles reconhecem. Pastores não por vocação, mas por falta de opção.
Outra colocação importante de Boff é ressaltar que "a atual estrutura da igreja é devedora de representações de poder que possuem séculos de existência". Elas são o estilo romano e a estrutura feudal. O que isso quer dizer? Há uma justificativa histórica para a forma de autoridade na Igreja. Tenho dificuldade com líderes que sempre vinculam seu estilo liderança a uma "revelação especial de Deus". Em outras palavras: não pode ser questionada.
Essa autoridade em estilo romano e feudal, segundo Boff, caracteriza-se por quatro fatores: "Hierarquia piramidal, Poder vitalício, Hierarquia sagrada e cósmica e Hierarquia intocável e não sujeita à críticas". Bem, entendo que as duas últimas possui alguma correlação conosco.
Aceitamos que as autoridades eclesiásticas derivam diretamente da vontade de Deus. Ora, a lógica é que "quanto mais alto alguém se encontra na pirâmide, mais perto está de Deus e assim mais participa do seu poder. Obedecer ao superior é, fundamentalmente, obedecer a Deus".
O estágio seguinte é consequência do anterior. Se a legitimação de uma autoridade vem de cima, de Deus, como criticá-la? Como questionar suas decisões? É possível pensar diferente sem que estejamos resistindo ao próprio Deus? Mas como explicar as aberrações que já se fizeram em nome dessa autoridade na "santa" inquisição? E as atrocidades que vemos acontecer todos os dias nem muitas igrejas? E as inúmeras frustrações e feridas geradas por líderes inescrupulosos? E as manipulações do sagrado? "Linguagens piedosas disfarçando a sordidez do caráter".
Claro, não pretendo discutir a validade da autoridade na igreja; nem muito menos a sua importância. Aliás como o próprio Boff afirma "a legitimidade não se discute; a autoridade existe e é querida por Deus". Concordo.
Porém devemos sim questionar a forma, a manaira como se organizam, as justificativas ideológias e até teológicas para formas comprovadamente equivocadas de liderança.
E, lamento informar: existem muitas.
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